A mulata
Todas as vezes que ela descia a ladeira o mundo parava para vê-la se mover.
Até as mulheres desgostosas com a exuberância alheia acabavam por dar o braço e a inveja a torcer: era tudo grande sem exageros, era tudo no lugar sem conformidades, era tudo em cima sem ângulos retos. Apesar da exposição natural ela realmente não ligava para as atenções. Era calma e auto-centrada. Cuidava apenas da própria vida.
Até que um dia, ao avistá-la um poeta-artista-plástico-intrelectrual-cinema-novista soltou no ar:
- Mas é a própria mulata do Di!
Furiosa e vigorosamente ela sentou-lhe a mão na cara numa tapa que elevou-o a dois palmos do chão. Seguido, uma sequência ininterrupta de impropérios e grosserias, inimagináveis de saírem de tão belos lábios.
Ela não gostava de samba, odiava carnaval, não comia feijoada e preferia infinitamente o Portinari. Ela detestava folclore.
17 Jul 2008 magopaco Default, Vetor 0 comentários











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