A menor fração da dúvida
Ela olhava para ele com uma expressão mista, mas de uma soberba uniforme.
Era um pouco de blasé, um tanto de presunção e um bocado de petulância que o deixavam espremido contra o chão. As costas com o peso do mundo e os pés chumbados no piso de cimento queimado.
O único afrouxo de cinto que lhe dava espaço suficiente para manter-se respirando era a impressão de um ligeiro, quase imperceptível, sorriso que às vezes parecia dar as caras no canto daquela boca bem desenhada pelo batom discreto. Era a mais ínfima fração de dúvida sobre suas intenções.
Era um vislumbre quase indetectável do que se passava na cabeça dela enquanto fitava-o implacavelmente, enquanto examinava-o detalhadamente da cabeça aos pés e apenas pensava em:
depravações
descaramentos
despudores
desvergonhas
espurcícias
frascarices
imoralidades
impudências
impudicícias
incastidades
indecorosidades
libertinagens
libidinagens
licenciosidades
luxúrias
maganagens
obscenidades
ordinarices
patifarias
perdições
perdimentos
perversões
poucas-vergonhas
sacanices
safadezas
safadices
salacidades
e
sem-vergonhices
Suas intenções não eram más, eram piores.
28 Apr 2011 magopaco Default 1 comentário
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Incrível esse seu texto… Ótimamente produzido. Criativo… Muito bem sacado… Parabéns.