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Não aguentava mais ouvir tanta besteira.
Chegou num nível tal de desespero que investiu todas as suas economias em desenvolvimento de bio-tecnologia para filtragem e seleção de informações, baseadas em cruzamento de dados através de análise booleana, semântica e referencial.
Depois de uma bateria exaustiva de testes, a versão beta do aparato foi finalizada e, apesar da resistência da equipe de cientistas, ele apressou-se em deitar na mesa de cirurgia. Dezessete horas e meia de cirurgia e o hardware orgânico estava implantado.
Após uma semana sem apresentar nenhum sinal de rejeição, o implante estava totalmente integrado. Três semanas de recuperação e cicatrização depois, decidiram que era hora de acionar o mecanismo em sua potência integral.
E aí, o inesperado.
Nem a adição de dois módulos de plugins de aperfeiçoamento de cognição deu jeito.
Baseados em impressões de estabilidade existencial e em uma observação superficial de padrões, ninguém conseguiu, técnica ou filosoficamente, prever a complexidade do comportamento dinâmico das besteiras, faltas-de-noção, patrulhamentos, arrogâncias e raciocínios primários.
Ao depararem-se com os filtros psico-conteudísticos e firewalls conceituais, as estupidezas inesperadamente apresentaram uma deliberada capacidade de auto-preservação, adaptação e ação de multiplicação: transmutaram-se tematicamente em críticas grosseiras de inclusão segregacionista, indignações primárias politicamente corretas e engajamentos histéricos perfunctórios.
O implante não aguentou. No final do terceiro dia, sobrecarregado pelo incomensurável fluxo de informações contraditórias e dados reduntantes, entrou em curto e parou de funcionar. Todo o mecanismo ficou inutilizado ou irremediavelmente comprometido.
E ele decidiu que o deixaria deste modo. Queimado, inerte, insensível e surdo, mas inofensivo. Antes o isolamento do que uma existência excruciante.
Apesar do fracasso prático, o experimento serviu de base para a fórmula que possibilitou toda uma nova linha de pesquisa relacionada à proteção e saúde da inteligência humana.
Foi através dele que chegou-se ao Teorema do Engajamento Desperceptivo Estólido Mutacional:
“A língua é viva. Os imbecis também.”